Porque dormimos melhor em algumas casas?

Dormimos melhor em alguns lugares porque o descanso depende também do espaço: da luz, do som, da temperatura e da forma como a cama se relaciona com o que a rodeia. O Feng Shui Clássico olha para estes fatores e acrescenta-lhes duas camadas que raramente consideramos: a sensação de apoio e segurança que o quarto oferece, e a orientação e o tempo da própria casa.

Gato branco a descansar sobre almofadas de linho, numa cama com cabeceira de palhinha.

Porventura, já te aconteceu dormir fora de casa, num lugar que mal conheces e acordar com a sensação de ter descansado mais do que no teu próprio quarto. E, no entanto, no teu quarto, pensado ao pormenor, o sono parece não ser tão profundo como gostarias.

É tentador procurar uma única explicação: o colchão, a almofada, a preocupação que trouxemos do dia. Às vezes, é uma dessas coisas. Outras vezes, vale a pena olhar para o quarto inteiro.

O que acontece ali quando apagamos a luz? Que sons continuam presentes? Por onde entra a claridade da rua? Como se sente o ar ao acordar? E o que vemos, todas as noites, antes de fechar os olhos?

O quarto também participa no descanso

Claro que dormir não depende apenas do quarto. Mas, como escrevi em A tua casa influencia a forma como vives, o espaço participa mais do que imaginamos. Já o vi em consulta: uma pessoa mudou de quarto e voltou a ter uma tranquilidade e noites de sono que não tinha há muito tempo. E o impacto não ficou pelo sono. Sentiu-se na casa toda.

Sim, a nossa dificuldade em dormir pode depender dos nossos horários, da saúde, do que nos preocupa naquele momento e de muitos outros aspetos da vida. Mas o espaço onde dormimos pode tornar esse momento mais fácil ou mais difícil.

Uma luz que atravessa as cortinas. O ruído intermitente de uma máquina. Um quarto demasiado quente. O telemóvel que se ilumina na mesa de cabeceira. Talvez nenhum destes elementos pareça decisivo durante o dia. À noite, quando procuramos repouso, tornam-se mais difíceis de ignorar. Mas, não é apenas isto.

Aquela cadeira com a nossa roupa toda em cima, a televisão que teimamos em ter no quarto, a cama que não tem cabeceira e apenas uma mesa de cabeceira. Tudo isto, que parece pequeno e inofensivo, acredita, tem um impacto enorme. Há também quem resolva as suas noites de insónia retirando o espelho do quarto. Cada caso é um caso. E para todos vale a pena olhar com atenção.

Por isso, antes de pensar em transformar o quarto, pode ser útil fazer umas perguntas simples: o que é que este espaço me pede, precisamente na hora em que preciso de descansar?

Aquilo que permanece quando tudo abranda

Nem sempre reparamos no ambiente de um quarto enquanto o usamos. Entramos, pousamos a roupa (ou deixamo-la espalhada?), procuramos uma coisa, respondemos a uma mensagem. Só quando nos deitamos é que percebemos que a persiana deixa passar luz, que ouvimos o vizinho a tomar banho, ou que a temperatura demora a tornar-se confortável. Arranja uma solução para estes temas que tenham solução.

A ventilação é muito importante. Arejar um quarto todos os dias é fundamental para o ar circular. Se não tens este hábito, sugiro que, de manhã, ao acordar, abras a janela do teu quarto, nem que seja por 15 minutos. Deixa a cama a arejar durante este tempo e sacode muito bem os lençóis ao fazer a cama. Se a janela incomodar, podes fechá-la.

O lugar da cama

A posição da cama é sem dúvida uma das primeiras questões quando se fala de Feng Shui.

Não há uma regra fixa, e quem diz que sim não está a contar a história toda. Antes de decidir que uma cama está "bem" ou "mal" colocada, interessa observar o conjunto. Consegues entrar e sair da cama com facilidade? Sentes-te confortável com a porta e a janela onde estão? A luz atinge-te de manhã quando queres acordar, ou acorda-te antes do tempo? Há espaço para pousar um livro ou um copo de água sem fazer equilibrismos?

No Feng Shui, olhamos para a disposição do quarto e para a relação entre a cama e o que a rodeia. Essa leitura não substitui a atenção à luz, ao ruído, à temperatura ou às necessidades de quem ali dorme. Ajuda-nos a fazer perguntas que, por hábito, deixámos de fazer.

Há algumas relações que observamos quase sempre: a presença de uma cabeceira, a posição da cama em relação à porta, a presença de espelhos ou até mesmo a posição da janela.

No Feng Shui Clássico, há ainda uma leitura que não se vê a olho nu: a orientação da casa, o momento em que foi construída e as datas de nascimento de quem ali dorme. É essa camada que uma consulta permite ler, e que explica porque é que o mesmo quarto pode servir bem uma pessoa e não outra.

Por vezes, mudar a cama de lugar é útil. Outras vezes, a diferença está numa cortina, num candeeiro, numas mesas de cabeceira, na forma como o quarto é usado ou em algo que não pode ser resolvido com decoração.

Um quarto para a vida que tens agora

É possível que o quarto onde dormes hoje tenha sido pensado para "outra vida tua". Que a secretária tenha chegado quando começaste a trabalhar em casa. Que os objetos se tenham acumulado porque já não há outro sítio onde guardá-los. Ou, talvez o quarto tenha passado a ser, ao mesmo tempo, escritório, arrecadação e lugar de descanso.

Seja qual for o motivo, é importante perceberes que função cumpre o teu quarto agora, para além de zona de descanso. É verdade que os tempos mudam, as famílias crescem, as dinâmicas mudam e um quarto muitas vezes precisa de cumprir várias funções. No entanto, isto pode explicar por que te custa tanto desligar ao fim do dia: o que deixaste por fazer continua à vista quando tentas dormir.

Vale a pena reparar no primeiro e no último gesto de cada dia. Ao entrar no quarto à noite, o que te chama a atenção? Ao acordar, o que vês? Há algo nesse espaço que te ajuda a fazer a passagem entre atividade e repouso?


Não precisamos de um quarto perfeito para dormir bem. Precisamos de perceber se o quarto que temos acompanha as nossas necessidades.


Começar por observar

Se tens a sensação de descansar melhor em outras casas, é possível que o teu quarto faça parte da solução para dormires melhor na tua própria Casa.

Escolhe uma coisa pequena que possas alterar e percebe como te sentes, daquelas que referi acima, se fizer sentido. Pode acontecer que esta experiência não resolva tudo. Mas pode ser um primeiro passo, revelar-te algo sobre a forma como vives aquele espaço e ajudar-te a dormir melhor.

Dormir melhor é uma questão demasiado importante para ser reduzida a uma fórmula sobre onde colocar a cama. Mas o quarto pode, e deve, sem dúvida, fazer parte desta conversa.

Perguntas Frequentes

Onde devo colocar a minha cama segundo o Feng Shui?

A cama deve estar encostada a uma parede. E pelo Feng Shui da Forma, deves conseguir ver a porta quando te deitas. Isto dá-te segurança, porque vês quem entra e ninguém te apanha de surpresa. Mesmo que conscientemente ainda não te tenhas apercebido disso. Contudo, a posição ideal da cama depende da orientação da casa, e por vezes abdica-se de umas coisas para se conseguir a melhor solução para uma boa noite de descanso.

A cama pode ficar debaixo da janela?

Pode, mas não é o ideal. É algo muito pessoal: experimenta e observa como dormes. Se num mês não notares melhoria, o caminho não é por aí. É imprescindível a cama ter uma cabeceira de madeira, e tem em atenção que junto à janela poderás ter de controlar melhor o ar que pode entrar.

Ter um espelho no quarto faz mal?

A maioria das escolas não o proíbe, mas todas concordam que não pode refletir a cama. Eu sou um pouco mais radical neste ponto e prefiro que não existam espelhos, de todo, no quarto. A não ser dentro de armários.

É mau dormir com os pés virados para a porta?

Se os pés ficarem em linha reta com a porta, não é o ideal: a energia que entra no quarto segue diretamente para a cama e o corpo não se sente protegido enquanto dorme. Se não for possível mudar a cama de lugar, um banco ou uma peça baixa aos pés da cama ajuda a quebrar essa linha.


‍ Uma pergunta para levares contigo

Quando pensas no lugar onde dormes, sentes que ele te convida a descansar?

Patrícia Vasconcelos

Patrícia Vasconcelos Cação é consultora de Feng Shui clássico e fundadora da Casa Qi, em Lisboa. Formou-se durante três anos na Escola Nacional de Feng Shui e complementou a sua formação com a Mastery Academy of Chinese Metaphysics, de Joey Yap. É especializada em Xuan Kong Fei Xing (Estrelas Voadoras), Xuan Kong Da Gua e 9 Star Ki. Com percurso em marketing estratégico e gestão de retalho, observa a casa a partir da forma como é vivida. Faz consultas presenciais na Grande Lisboa e à distância, em qualquer país, em português, inglês e espanho

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